Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Não posso deixar de compartilhar o título desta notícia:


Passos elogia “transparência” de Relvas no caso das secretas

Seria cómico se não fosse trágico.

Na descrição do debate a que a notícia alude não posso deixar de destacar o seguinte:

«O coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, pegou na deixa do primeiro-ministro para alegar que, perante as circunstâncias que envolvem os arguidos do processo das secretas, “ninguém está seguro”. "A nebulosa é tão grave, porque mistura a pressão sobre a comunicação social com a forma como são utilizados os serviços secretos", criticou Louçã.
Apesar de o primeiro-ministro ter assegurado que a “preocupante” situação teve “uma resposta pronta do Governo” e teve “por parte do conselho de fiscalização uma ação muito apertada”»

Eu não posso deixar de destacar esta parte, porque este blogue denunciou na altura (quanto poucos davam atenção ao caso) qual foi a resposta pronta do Governo:

«Mas é uma péssima notícia que sejam «exonerados» os funcionários que no Verão passado denunciaram à comunicação social alguns dos crimes comuns cometidos pelos colegas. Na minha opinião, funcionário de serviço do Estado que denuncia crimes cumpre o seu dever perante a lei e a República. Parece que Passos Coelho entende, pelo contrário, que funcionário do Estado que comete ou encobre crimes merece recompensa. Mantém-se portanto a lógica de quadrilha de criminosos em que funcionam o SIS e o SIED»

Revista de blogues (30/5/2012)

  • «Considerem-se três notícias recentes:
    Um tribunal ordenou que o movimento Precários Inflexíveis apagasse, no seu blogue, comentários que denunciavam práticas ilegais de recrutamento e utilização de mão-de-obra porque a empresa em questão se sentiu “atingida na sua honra”. O tribunal não quis averiguar se os factos relatados por pessoas que diziam ter sido vigarizadas por esta empresa eram reais ou não. Na prática, considerou que a “honra” de uma empresa merecia mais proteção do que as denúncias das vítimas dessa empresa.
    O Tribunal da Relação de Lisboa condenou o advogado Ricardo Sá Fernandes por este ter gravado e denunciado uma tentativa de corrupção e ter colaborado com as autoridades na investigação da mesma, dando assim mais proteção ao corruptor do que à descoberta da verdade. Na prática, a mensagem é: se souber de alguma tentativa de corrupção, não a denuncie nem colabore com as autoridades.
    Para terminar, este fim-de-semana soubemos que um ex-diretor das secretas, agora no setor privado, mandou reunir um dossier sobre um competidor direto dos seus novos patrões, o empresário Francisco Pinto Balsemão, incluindo rumores sobre a sua vida privada. Há nesta notícia um certo “ar de família” com as ameaças de revelar na internet boatos sobre uma jornalista que, segundo este jornal, terão sido feitas pelo ex-ministro Miguel Relvas.

Um santo homem

O padre Robert Sirico veio oportunamente corrigir mais outra perigosa heresia do "socialismo" da "esquerda" americana.  Valha-nos a ICAR nestes momentos difíceis, para nos tirar do caminho da heresia e do erro doutrinal, e nos relembrar as palavras justas de Jesus sobre a maldade dos impostos.

Com um capachinho muito elegante na cabeça grisalha, este santo e sábio homem foi à FOX confessar, num único fôlego,  que é irmão dum actor dos "Sopranos," e que não tem dúvidas que Jesus (e Deus e a Nossa Senhora se calhar também) estão muito tristes no Céu por verem a semente da dúvida grassar na Terra, quando se fala na justiça divina inerente às trickle down economics.

A ICAR está sempre do lado certo: do progresso, da justiça e da paz!  E ainda há quem diga mal!

Ah, os serviços secretos e o seu fedor...

Hoje (ontem), descobriu-se que o diretor do Expresso tinha ficha no SIED. Incluindo «relações afetivas, nomes, idades e escolas frequentadas pelos filhos menores». Parte só podia vir de «fontes fechadas», ou seja, de vigilâncias, violações de privacidade e outros crimes. Tal como o cidadão Ricardo Costa, milhares de outros cidadãos honestos devem ter ficha no SIS ou no SIED (ou nos dois). Incluindo com quem dormiram ou com quem os espiões taradinhos acham que dormiram, a cor dos olhos dos filhos, etc. É tranquilizador? Não. Pior: numa ditadura, ao menos, assume-se que estas coisas se fazem. Em Portugal, em 2012, era suposto não acontecerem.

Entretanto, a Ongoing diz que rejeita a «insinuação de ter utilizado serviços secretos, detetives privados, investigadores ou quaisquer meios ilegais». Que cómico. Será que querem que nos esqueçamos que Silva Carvalho confessou no Parlamento que tinha ido para essa empresa formar uma equipa de «espionagem industrial» (como sabe línguas, chamou-lhe «business intelligence»)? E a propósito do ex-hiper-mega-pide Silva Carvalho: pediu para ser «desvinculado» do segredo de Estado. É uma ameaça de contar os segredinhos sexuais de todos os políticos, a quem vigiou ou o mandaram vigiar, quem torturou ou mandou torturar? Recorde-se que disse aos deputados que «não violou o segredo de Estado», mas não disse que não violou a lei e a Constituição (aliás, fez campanha para alterar esta última).

E até o PSD já começa a entender o monstro que ultrapassa governos...

Um passo à frente outro atrás

Na Arábia Saudita, uma mulher num centro comercial desafia uma brigada dos bons costumes quando abordada por mostrar o cabelo e por pintar as unhas.
Na Ucrânia, as claques mais radicais exibem o seu antissemitismo e o seu racismo com todo o à-vontade, com a complacência das autoridades.
Sinais dos tempos que correm.

 

Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Javier Krahe: «Como cozinhar o Cristo»

O artista Javier Krahe foi ontem a tribunal, em Espanha, por ter feito o pequeno filme que se vê mais abaixo.
 
 É acusado de «ofensa aos sentimentos religiosos» (ou seja, de blasfémia). Se for condenado, admite exilar-se em França.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Sondagens e um possível ponto de viragem

Utilizando os dados a que fiz referência neste texto, acrescentei informação relativa às eleições legislativas, bem como o ajuste linear aos valores das sondagens.
O resultado é animador:


Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Eu gosto de filmes de zombies...

...e não esqueço a principal lição: um grupo humano que não percebe a tempo que tem entre eles um indivíduo que se deixou morder/contaminar pelos zombies (ou seja, que está a tornar-se num morto-vivo) acaba sempre por ser destruído antes do final do filme.

(Lembrei-me disto a propósito das sábias palavras do «Professor Marcelo».)

Revista de blogues (28/5/2012)

  • «Tudo o que sabíamos dos serviços secretos do Estado português, Jorge Silva Carvalho e a Ongoing chegava e sobrava para uma ação exemplar, em que não ficasse pedra sobre pedra. A informação de que Silva Carvalho e outros ex-agentes do SIED, a trabalhar para Ongoing, recolheram e fazeram divulgar informações sobre a vida privada de Francisco Pinto Balsemão, dono da Imprensa, com quem a empresa empregadora do ex-espião mantém um contencioso (que, para que fique claro, não me diz respeito), já está para lá do que se poderia imaginar. Se tudo o que temos sabido for verdade, ninguém está a salvo. Qualquer um que critique Silva Carvalho ou ponha em causa os interesses da Ongoing pode ver, de um dia para o outro, a sua vida privada devassada. Como em qualquer ditadura, o poder desta gente sustentar-se-á no medo. Tudo isto começa a atingir proporções tão assustadoras que não podemos fechar os olhos. Se a Ongoing e Silva Carvalho fizeram o que se escreve que fizeram, todos os responsáveis por isto têm de acabar atrás das grades. E todos os seus cúmplices políticos têm de ser responsabilizados. Porque com a nossa liberdade não se brinca. Por enquanto, estamos perante uma nebulosa. É tudo demasiado escabroso e reles para parecer verdade. Mas isto não é mais um escândalo. Que se cuidem os que, tendo um envolvimento direto ou indireto nisto, estão só à espera que a coisa passe. Se ainda nos consideramos um Estado de Direito, não pode passar. Confirmando tudo o que se tem escrito, estamos perante gangsters. E a lei tem de saber como lidar com gangsters e com os seus cúmplices.» (Daniel Oliveira)

Os erros da Troika quanto à flexibilidade

«Troika justifica desemprego com falta de flexibilidade salarial» relata-nos o jornal i.

Podemos discutir se as afirmações da Troika são justificadas pela incompetência de seus membros (o que poucos acreditarão), ou pelo facto da agenda mais útil aos interesses que servem ser pouco compatível com o respeito pela verdade.

Aquilo que é claro é a falsidade destas afirmações - a falsidade da justificação dada para o elevado valor do desemprego.
E isto pode ser demonstrado por três vias diferentes:

1) Em Portugal o desemprego total é de 14,9% (ou 20%...), mas este valor altíssimo deve-se principalmente ao desemprego jovem que é de 36,2%. Acontece que o mercado de emprego jovem em Portugal é um dos mais flexíveis da UE. No mercado onde existe menos flexibilidade existe também menos desemprego.

2) O desemprego aumentou significativamente acima das previsões do Governo, segundo alegam membros do próprio, de forma anómala tendo em conta a retracção da economia. Ora todas as mudanças que o Governo  fez no funcionamento do mercado de trabalho - diminuição das indemnizações por despedimento,  revisão do código laboral, etc. - foram precisamente no sentido de aumentar a flexibilidade, à custa da estabilidade.

3) Empiricamente observa-se uma relação linear entre o crescimento económico e a variação do desemprego, sendo que a legislação laboral no tocante à flexibilidade pode influenciar o declive. Como já referi, o corolário de afirmar que em condições normais (crescimento positivo) o aumento da flexibilidade tende a levar à criação líquida de postos de trabalho (uma hipótese já de si questionável) é que em situações de crise profunda (crescimento negativo) uma maior flexibilidade laboral leva à destruição de mais postos de trabalho.
Assim, a existência de uma elevada rigidez laboral seria uma protecção acrescida para crises como esta, em que se verifica uma contracção abrupta da economia, no sentido da mesma crise provocar uma perda menor de postos de trabalho.
Repetindo-me: não existe momento menos pertinente para aumentar a flexibilidade laboral (fosse isso desejável...) do que aquele que vivemos.

São três vias independentes mas complementares de mostrar não só que as afirmações da troika são falsas, mas que o contrário delas é verdadeiro. Com maior razão se poderia dizer o oposto, que o aumento anómalo do desemprego tem justificação no aumento da flexibilidade; que o excessivo desemprego jovem tem justificação na total ausência de rigidez desse mercado. Mas isso seria menos conveniente para a agenda que à Troika interessa impor.

Domingo, 27 de Maio de 2012

Revista de blogues (27-05-12)

É CURIOSO que tenha sido Adelino Cunha, o demissionário assessor, a escrever (enquanto jornalista) um perfil de Miguel Relvas que foi publicado na Notícias Magazine em 1 de Maio de 2011, a apenas 36 dias das eleições. Lido hoje, é ainda mais irónico o final desse perfil: “Miguel Relvas apostou na vitória certeira de Fernando Nogueira e Passos Coelho, equivocou-se no apoio a Durão Barroso, do qual ainda hoje guarda um sabor amargo. Quando agora põe os pés em cima da secretária e liga a aparelhagem para ouvir a banda sonora do filme Mamma Mia, Relvas sabe que a sesta será breve, porque o seu amigo há-de entrar pela porta do gabinete na sede do PSD a qualquer instante, ou o telemóvel tocará por um qualquer motivo. Não se importa. Ligou o seu sistema nervoso central a um único objectivo: construir o próximo primeiro-ministro. «O Pedro sabe que estou a fazer tudo para que ele seja primeiro-ministro e também sabe que devo ser a única pessoa no PSD que não quer o lugar dele. A minha carreira política terá o prazo de validade da dele.” (Ponto Media). O perfil completo está aqui.

Ponto de viragem nas sondagens?

Usei os dados simpaticamente disponibilizados no site da Marktest, que agradeço. Mas, apesar da simpatia, continuo a não confiar nos resultados desta empresa, pelo que recorri apenas às sondagens das concorrentes.
Depois, agreguei os partidos da esquerda parlamentar - PS(?), BE e CDU - e os da direita parlamentar - PSD e CDS - mostrando estes resultados em função do número de dias passados desde as últimas eleições legislativas.
Para que os resultados fossem comparáveis, as percentagens referem-se ao total de respostas relativas aos cinco partidos mencionados.
Aqui estão os valores:



Há uma tendência clara, que espero que continue. Estou convencido que representa um abrir de olhos.

Sábado, 26 de Maio de 2012

A Oeste Nada de Novo

Um ponto da situação excelente.

Ongoing tinha PIDE privada

É o que afirmam os jornais de hoje: que na Ongoing se instalou um grupo de espiões do SIS e do SIED que, entre outras coisitas, escreveram quarenta páginas sobre a vida de Pinto Balsemão, incluindo «dezenas de calúnias e falsidades - algumas das quais de mau gosto e grotescas» (segundo o próprio). Também faziam campanhas de desinformação no Twitter.

Registe-se que Pinto Balsemão é um homem de direita. Aqueles que enfrenta nesta questão são também de direita, mas feitos de outra louça: são fascistas que se dão mal em democracia, como José Eduardo Moniz.

Coisas sérias

Na estação dos commencement addresses, em que os patrões da finança, da política e dos media, e as estrêlas de Hollywood, invadem os campus universitários com as gabarolices idiotas do costume - sou rico porque fiz as escolhas certas e Deus ajudou-me - um pequeno colégio - Hampshire College - convidou um ex-aluno que fez um dos discursos mais divertidos que eu ouvi aqui em 14 anos.

Casa onde não há pão...

O papa mandou prender um criado - Paolo Gabriele - suspeito de passar informação à imprensa sobre a corrupção e as guerras intestinas do Vaticano.  A ICAR tem mais de mil e quinhentos anos e viveu muitos tempos difíceis, mas as últimas décadas parecem anunciar o fim desta organização horrível e responsável por tanto sofrimento e tanta pobreza no mundo.  Especialistas em propaganda, os católicos vão escondendo como podem a crise tremenda que a Igreja está a atravessar, sem padres, sem dinheiro e perseguida por advogados aqui nos EUA, onde a fonte das violações de menores continua a jorrar milhões de dólares em reparações pelos crimes inenarráveis que o clero cometeu e escondeu durante os últimos 25 anos.

Estupidez

Who needs astrology? The wise man gets by on fortune cookies
Edward Abbey

Estou regalado (não encontro outra palavra) a ler o livro delicioso de Avital Ronell "Stupidity". Um livro balsâmico para quem vive na Confederação há 14 anos, isolado entre conservadores.

Os meus amigos portugueses estão-me sempre a lembrar que Portugal está cheio de conservadores - o José Manuel Fernandes, o César das Neves, os membros do blog Insurgente, etc. - mas não percebem que aí os conservadores estão diluídos, que há livrarias e que a cultura e o saber são respeitados (excepto nos corredores do governo).

Aqui é diferente. Impera a estupidez em todas as formas, das mais benignas às mais tóxicas, e não há um referêncial. O livro de Ronell é sobretudo divertido quando descreve a estupidez que é rápida (os pobres são pobres porque fizeram as escolhas erradas, o FDR era comunista, os ateus são todos criminosos em potência porque não têm medo do Inferno, Obama é nigeriano, os muçulmanos são terroristas...), a estupidez que pensa (a dos senadores que vendem o país aos ricos), a estupidez que não consegue estabelecer relações organizadas entre causas e efeitos (a política fiscal e a crise), a estupidez que é aprendida (os africanos são bons nos desportos e maus em matemática)... Ronell apresenta o catálogo completo num inglês inteligente e divertido, culto, sensível e cheio de ironias. Um livro que faz companhia a quem vive no Texas, onde toda a gente vê a FOX.

Os texanos vêem a FOX de manhã e depois metem-se no carro e ouvem os "talk shows" que são ainda mais estúpidos e mais primários e mais infantis e mais rurais e mais odiosos do que a FOX. Esta gente - boa, como a maioria das pessoas em todo o mundo - vive num mundo virtual (criado por quatro ou cinco magnatas dos media: Rupert Murdoch, Mark Mays, etc.) cheio de perigos e de inimigos, e absorve as opiniões fabricadas por "maketers" em "think tanks" financiados por um pequeno grupo de multimilionários, todos fascistas, por necessidade ou vocação. O resultado é esta atitude anti-intelectual radical, que recusa com um ódio supersticioso tudo o que não é imediato, que pensa por slogans, que odeia nomes e rótulos de uma forma pavloviana e que recusa totalmente o debate de ideias. Parte dos meus alunos abandona a sala de aulas regularmente, quando eu falo de Darwin, por exemplo.  E votam todos porque o movimento evangélico está mais bem organizado do que o KGB da antiga URSS.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Ministra da Agricultura deveria demitir-se

Não é de ontem nem de hoje, mas o problema tem-se vindo a agravar desde que Soares dos Santos decidiu lançar o seu projeto político (sem ir a votos) espezinhando uma série de leis da república. O dumping que já se praticava a lume brando (e não era só o Pingo Doce a praticá-lo), tomou proporções incontroláveis quando outras cadeias de supermercados seguiram a famosa campanha dos 50% de desconto, isto apesar de estarem em curso investigações por concorrência desleal em inúmeros supermercados da Jerónimo Martins. Já há mais de 100 anos que a experiência, a história e os livros de economia nos ensinam que o dumping destrói a economia e produz desemprego entre produtores (principalmente agricultores) e comércio local.

Hoje foi tornado público que os estragos e as faturas das promoções selvagens do Pingo Doce começaram a chegar aos produtores e aos agricultores. O Pingo Doce começou a pressionar os produtores exigindo um aumento de margem para si, "uma verba que o produtor teria de entregar ao Pingo Doce, uma renegociação de contratos e verbas para reforço de competitividade". Isto são coisas dos filmes do Padrinho. Nas palavras de um dos principais representantes dos produtores nacionais existem "empresas com medo represálias caso não aceitem as condições dos supermercados, nomeadamente com marcas que podem desaparecer das prateleiras" e temem-se já "falências, desemprego, desinvestimento na produção nacional e, eventualmente, um aumento das importações".

A passividade da Ministra da Agricultura (e de não-sei-quantas-pastas) perante as sucessivas campanhas de 50% foi confrangedora. Será que o CDS tem receio de afrontar Soares dos Santos? E porquê? Muito provavelmente, agora é tarde demais para o ministério intervir, para evitar que os estragos se continuem a propagar até aos nossos bolsos, deixando um rasto de desemprego atrás de si entre agricultores, produtores e trabalhadores do comércio local. Como tudo isto é demasiado grave no momento de crise que atravessamos, demita-se senhora Ministra.


Ó Relvas, ó Relvas, demissão à vista...

O adjunto do Ministro adjunto Relvas demitiu-se. Parece que em Setembro, já em pleno escândalo SIED/Ongoing, trocava SMS´s com Silva Carvalho. Também houve telefonemas, inclusivamente de um telefone da Presidência do Conselho de Ministros. Presume-se que será por esta via que Relvas recebeu a ficha do SIED sobre a vida privada da jornalista do Público. (O Público mantém que Relvas ameaçou, em dois telefonemas separados, divulgar na internet com quem vive a jornalista, para além de outras ameaças.)

Já o escrevi e repito: ou assumimos que os jornalistas do Público estão a mentir, ou que Relvas mente. E nem acredito que adultos inventassem uma história destas nem a reacção de Relvas me convence que seja invenção. Portanto, a demissão é o que lhe recomendo.

Outra conclusão que se impõe é que os serviços secretos mantém fichas sobre a vida privada de muita gente. Não, não são só islamistas e «perigosos» anarco-ciclistas. É mesmo dirigentes da oposição, dos sindicatos, jornalistas e outros. Que esta gente seja paga com dinheiro dos nossos impostos para fazer fichas sobre a nossa privada é perverso e nojento. Quem encontrar um elemento do SIED ou do SIS na rua que mude de passeio.

Espectadores da Fox News menos informados do que quem não vê notícias

É o que se conclui da leitura desta notícia, cuja passagem traduzo:

«O estudo, publicado este mês pela PublicMind, um centro de pesquisa da Universidade Fairleigh Dickinson que realiza sondagens, estudos de opinião e outras pesquisas relativas à opinião popular, descobriu que algumas organizações noticiosas têm um «impacto negativo» no conhecimento da actualidade tal que teria sido melhor se não tivessem observado notícias de todo.
O centro chegou a esta conclusão perguntando 1185 americanos ao longo da nação quatro questões sobre actualidades relativas aos EUA e cinco questões relativas a ocorrências internacionais, e sobre a fonte noticiosa - se alguma - onde obtiveram informação na semana anterior.»


Qual a relevância disto? Isto mostra o poder da propaganda. O dinheiro pode ser usado para distorcer a percepção da realidade a tal ponto, que uma das redes noticiosas mais importantes consegue ter um «impacto negativo» quando comparada à ausência de informação.

Os EUA em certos aspectos são uma caricatura do sistema político na Europa. Na Europa é tudo mais subtil, mesmo que por vezes mais perverso. Também é nos EUA que alguma direita portuguesa, muito provinciana, vai beber a sua propaganda (daí os discursos de Passos Coelho quanto à necessidade de empreendedorismo). Na questão do controlo da informação, convém não nos distrairmos.

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Obviamente

Miguel Relvas não é um ministro qualquer. Acumula pastas de mediação: assuntos parlamentares e autarquias, futebol e comunicação social. Presumivelmente, todos os poderes fácticos do país se pelam pelo seu número de telefone e por uma conversa de corredor com este pequeno Richelieu.

Admito que inicialmente a investigação do “Público” sobre as ligações entre Silva Carvalho e Miguel Relvas me pareceu inócua. Todos recebemos emails não solicitados, e a megalomania do ex-SIED torna crível que se posicionasse para novo chefe de todas as pides. O caso mudou de figura quando eu soube que Relvas pressionou uma jornalista para não publicar: só o faz quem teme. E a situação tornou-se insuportável quando li que Relvas ameaçou “divulgar, na internet, dados da vida privada da jornalista”, aparentemente em dois telefonemas separados. Conclusão: ou os jornalistas do “Público” são mentirosos ou Relvas se comporta como um tiranete da Luanda colonial (ou pós-colonial). Mas juntando que Silva Carvalho armazenava ficheiros com “aspectos da vida privada e orientação sexual” de figuras públicas, acrescenta-se a suspeita de que Relvas se cevou na pocilga dos serviços secretos.

Ter momentos de exasperação com gestos e frases desapropriadas é humano (aconteceu a Manuel Pinho e demitiu-se). Os dias passam e Relvas não esclarece cabalmente o caso. A opção mais digna que lhe resta é a demissão.

(Publicado originalmente no i.)

Tribunal intervém em caixa de comentários de blogue

Deve ser uma estreia mundial: um tribunal mandou «suspender ou ocultar» comentários de um blogue (vá lá, não os mandou apagar todos). Um tribunal da Arábia Saudita? Do Paquistão? Da Bielorrússia? Não. De Portugal.

Tudo por causa de um artigo no blogue dos Precários Inflexíveis que denuncia uma empresa chamada Axes Market/Ambição Internacional. Os comentários limitam-se a confirmar, com dezenas de testemunhos, as práticas da empresa. Resumidamente: «DOZE HORAS POR DIA, 6 DIAS POR SEMANA, recebendo apenas uma comissão de 20 ou 30€ por venda - e, como é óbvio, nem sempre se vendia, principalmente porque nos enviavam para a mesma zona de dois em dois dias. As despesas de deslocação e alimentação eram por nossa conta (...) Até hoje não recebi um cêntimo pelas vendas que fiz». Enfim, uma empresa campeã olímpica na modalidade de capitalismo selvagem.

Fica o PDF do artigo em litígio, incluindo os comentários que geraram o processo judicial. Sentença aqui.

Moralização dos "benefícios" dos alimentos

A rotulagem e a publicidade dos alimentos que pretendem uma série de benefícios para a saúde dos consumidores vão passar a estar mais sujeitas ao escrutínio científico. A União Europeia limita a uma lista de 222 as alegações de benefícios para a saúde e dá 6 meses a todas as empresas para retirar do mercado produtos com informação infundada sobre os seus benefícios para a saúde. Parece que os famosos iogurtes Activia vão ser uma das principais "vítimas" desta moralização.

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Quer fugir ao Parlamento, senhor Relvas?

O PSD anunciou que votará contra a audição de Relvas no Parlamento a propósito das pressões à jornalista do Público. O que é mau. Diria mesmo mais: é asfixiante.

Revista de blogues (22/5/2012)


  • «A direita europeia tem passado as duas últimas semanas a chantagear o povo grego e a demonizar o líder do Syriza, Alexis Tsipras; e reafirmando um poder de soberania que manifestamente os gregos não admitem. Desde Merkel até Lagarde, passando pelo inefável José Manuel Barroso, todos parecem querer ter uma palavra a dizer sobre o destino da Grécia.

    Não se pode negar que tenham. O que preferem querer esquecer é que ao destino de Grécia está intimamente unido o futuro do Euro e da União Europeia. Por isso não se percebe a posição de força desta direita que oscila entre a cegueira ideológica e a orgulhosa teimosia. Todos os dias se repetem as ameaças: as medidas de austeridade são para cumprir. Ignorando que foram essas medidas de austeridade que levaram ao descalabro económico da Grécia e, estranhamente, de acordo com as belas cabecinhas pensadoras desta gente, à ascensão dos partidos de protesto nas legislativas. É como se a Europa estivesse a seguir disparada em direcção ao abismo, ignorando todos os sinais alertando para o fim da linha.